Miss Minas Gerais Plus Size 2018



Sábado foi realizada a edição 2018 do concurso Miss Minas Gerais Plus Size. O evento tem como objetivo principal celebrar a diversidade e contribuir para a desconstrução de padrões nocivos à autoestima e à aceitação da mulher gorda. Esse tipo de evento tem um papel importantíssimo no combate a gordofobia. Porém, este ano, o resultado causou polêmica.

A repercussão do resultado do concurso reaqueceu o debate sobre a importância da luta por representatividade, respeito e aceitação. A primeira coisa que vale ressaltar é que nenhuma das críticas que farei são direcionadas a lindíssima miss vencedora. Contudo é preciso debater o impacto desse resultado numa luta que é a mesma para muitas mulheres.

Resumidamente: a vencedora do concurso é notoriamente a mais magra das candidatas (eu pessoalmente a categorizaria como Curvy Model ao invés de Plussize). E o que apimenta ainda mais as críticas é o fato da moça ter passado recentemente por todos os procedimentos estéticos que sucedem a cirurgia bariátrica.

Muitos comentários que li a respeito colocam a candidata como alguém que não se aceitou. Quanto a isso tenho minhas ressalvas. Acredito que a primeira critica construtiva que faço ao evento é sobre colocar mulheres com manequins tão distintos na mesma categoria. A partir do momento em que se cria um evento para tirar o estigma negativo associado a qualquer pessoa gorda é fundamental que a vencedora "represente" uma mulher gorda. A silhueta de uma mulher que veste 44/46 é completamente diferente de uma que veste 48/50 e por aí vai. Quanto maior o manequim, maior o preconceito e os desafios que essa mulher irá enfrentar diariamente. De forma alguma estou minimizando a luta e a história de qualquer uma pessoa (independente do manequim) mas estamos buscando visibilidade da beleza das mulheres gordas.

Como em qualquer luta há a apropriação da mídia para tornar toda "bandeira" uma mercadoria. Um dia me dedicarei a falar sobre o quão lucrativo virou a palavra empoderamento e feminismo. Mas basta folhear qualquer revista ou acompanhar perfis de modelos plussizes famosas no Brasil para perceber como o mercado ainda restringe o tamanho "aceitável" de uma mulher gorda. E é justamente contra padrões que limitam e oprimem, que concursos como esses são criados. Portanto é muito significativo (e triste) ver que a miss eleita para representar o nosso estado seja a mais magra entre todas as candidatas. Essa comparação só aconteceu porque a candidata coroada era a única que sequer parecia ser gorda.

Alguns comentários que li relacionam o fato de ela ter passado pela bariátrica como uma prova de não "auto-aceitação". Já escutei muitas bobagens sobre esse tipo de procedimento e, como alguém que já passou por ele, acredito que ninguém merece esse rótulo. Acho que cada um tem um caminho a percorrer em busca da "felicidade". Em alguns aspetos, acho que a bariátrica tem muita semelhança com cirurgias de mudança de sexo: a pessoa quer que seu corpo reflita sua alma.[*1]  Parabéns para todas as mulheres que conseguem se amar sem passar por isso. Sem um pingo de ironia eu digo que merecem aplausos. Só quem já passou pela pressão de estar acima do peso "ideal" sabe a dimensão dessa luta. E cada um reage de uma forma. Ninguém deve julgar o caminho de uma pessoa.

Eu não sou o tipo de pessoa que compartilha detalhes (não era, não é mesmo?) da minha vida com ninguém. Acho que cada um que te conhece tem acesso a uma versão de você e não vejo porque contar cada detalhe de tudo que nos trouxe até onde estamos hoje. Contudo, não tenho o menor arrependimento de nada que fiz.  Inclusive, uma das razões de compartilhar isso é por que, em breve, minhas cicatrizes, estrias etc serão mostradas em fotos e detesto ter que ficar explicando os porquês da minha aparência. Faz quase 15 anos que fiz minha bariátrica e foi extremamente importante para que eu me compreendesse por completo. A minha experiência foi bastante peculiar porque eu só me aceitei de fato bem recentemente, quando voltei a ser gorda. Mas, como já dizia Caetano: "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". E devo dizer que tenho sido o oposto de todas as pessoas (Aquariana com ascendente em Aquário não poderia ser de outra forma: do contra!). Sempre senti, lá no fundo do coração, que só seria feliz de verdade se eu me sentisse bem comigo mesma enquanto estivesse gorda. E estava certa. Mas tudo que vivemos é que nos transforma na pessoa que somos hoje. Tenho muito orgulho de todas essas fases da minha vida porque aprendi com cada uma delas (virou até tatuagem nas minhas costas).

Recentemente eu tive diversas experiências que me mostraram o quanto eu mudei (pra melhor!). Não sei se é assim para todo mundo mas, até pouco tempo atrás, ir ao provador de uma loja era como uma "provação"! Eu nunca havia contemporizado isso até semana passada. Antes, se eu experimentasse uma roupa e não ficasse bem, eu SEMPRE achava que o problema era o meu corpo! Parece estúpido mas era como me sentia. E não era algo consciente. Semana passada fui comprar umas roupinhas e pasmem: meu corpo deixou de ser um problema para mim! Eu vesti uma série de roupas, algumas ficaram boas, outras ruins, mas eu sabia que a "roupa não vestiu bem". Simples assim! Tão leve! Tão libertador! E ao mesmo tempo tão óbvio!

Quando a roupa "orna" são outros quinhentos.


Por isso, não acho que podemos julgar o caminho de ninguém. Gente, eu sou inteligente e levei quase quarenta anos para chegar a essa conclusão quase banal: meu corpo não tem nenhum problema!

E é por isso que eu faço essa crítica ao evento. Quem sabe não criam categoria Curvy além da Plus (para que todas mulheres "fora do padrão" se sintam representadas)? Por que sim, eu acho válido! Por que a diversidade é importante! Mas hoje, as mulheres que vestem mais de 50 merecem poder ser representadas num concurso de beleza! E por mais linda que as moças de 44 ou 46 (que também são estigmatizadas) e que mereçam ser reconhecidas como belas, esse título carrega o "peso" da luta de cada uma nós! Por que hoje eu tive a coragem (digo coragem por que isso NUNCA tinha passado pela minha cabeça nem quando eu estava magra) de ir a uma agência de modelos é porque antes de mim muitas outras mulheres "ousaram" se expor num mundo limitado pelos padrões esguios

Mulheres Plussize, nós estamos construindo um mundo melhor cada vez que postamos uma foto com roupas lindas, cheias de estilo, sexy e com um super sorriso no rosto! Nós estamos construindo um mundo melhor para TODAS as mulheres! Inclusive as modelos manequins convencionais! Por que quanto mais o mundo aceitar e respeitar as mulheres como são, menor será a pressão para todas nós! Sempre haverá mulheres macérrimas e gordíssimas mas espero que todas elas possam se sentir bem. Eu jamais irei criticar uma pessoa que opte por emagrecer, a questão é a obrigação de emagrecer para ser aceito ou ter trabalhos. É aí que está o foco da questão.

Por isso que venham mais Miss Minas Gerais Plus Size! E que sejam cada vez mais representativos e prestigiados! Parabéns a todas candidatas e para a Miss 2018! Vocês representam muitas mulheres e podem ajudar as meninas de hoje a se sentir belas desde pequenas (diferente de grande parte de nós que conviviam ou com a invisibilidade ou com as ofensas). Concursos de beleza Plus size são de fato empoderadores. Aos jurados da próxima edição: lembrem-se que estão construindo um novo padrão!

Em breve falarei um pouco desse novo desafio que me propus a enfrentar! Mas por hoje é só!

Ciao



[*1] Nota sobre a comparação com cirurgia de mudança de sexo: minha amiga me alertou que essa comparação pode soar ofensiva para as pessoas que passam por essa cirurgia. Eu gostaria de esclarecer a semelhançaa que merefiro. Apesar de tudo que eu sentia ser devido a pressão social, por muito tempo odiava meu corpo ao ponto de parecer que ele não me pertencia. Como se eu precisasse de outro corpo para ser eu mesma. 

Apesar de só poder imaginar o quão angustiante e desesperador deve ser sentir que seu corpo está errado, numa escala muito diferente, eu também sentia que a cirurgia (uma vez que já havia passado por inúmeras dietas ao longo da vida) era minha única alternativa para conseguir ser quem eu era.

Caso eu tenha ofendido alguém com essa comparação, eu peço desculpas. Como a internet é um espaço incontrolável, resolvi colocar a explicação no próprio texto para evitar mal entendidos.

Longe de mim querer simplificar ou minimizar o sofrimento e a experiência de outra pessoa. Foi apenas uma metáfora baseada na minha percepção particular do meu corpo quando ainda era pré-adolescente.

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