Alzheimer, a ausência e o aniversário



Já faz um tempo que convivo com a triste sombra do Alzheimer. Minha vó, que em breve completará 94 anos, tem sofrido com as limitações próprias desse mal há alguns anos. Porém, desde o mês passado, a doença tem se intensificado bastante.

Vale lembrar que não quero falar da parte científica dessa doença, o que desejo é falar sobre o impacto afetivo que ela tem. Minha vó é a pessoa mais admirável que eu conheço. Na verdade meu vô também era. Eu poderia escrever milhões de posts sobre o quanto os dois me serviram de exemplo e modelo, contudo, hoje o foco é nela. É muito triste ver a essência da mulher que minha vó foi se apagando dia após dia. Sua personalidade se dissolvendo pouco a pouco e sua autonomia, até para coisas básicas como se alimentar, se acabando.

Esse post reflete o que tenho sentido nos últimos meses a cada visita que faço que, confesso, estão cada vez mais curtas. As vezes, a sensação que tenho é que ali está apenas um espectro translúcido de quem um dia foi minha vó. As vezes percebo um olhar triste, adoraria acreditar se tratar de uma projeção do meu próprio sentimento, mirando com desconfiança para mim. Aí começo a tentar adivinhar oque ela está sentido, se está com medo, raiva ou dor.

Os médicos dizem "é mais difícil para quem fica do que para o paciente", será? A verdade é que não saberemos nunca o que ela sente. Mas o que eu sinto é uma grande revolta por ela ter que passar por isso. A cada momento um aspecto de sua autonomia é retirada: andar, comer e em alguns momentos até respirar sozinha. E veja bem, ela não está no patamar mais avançado da doença. Fico me perguntando qual é a vantagem de tanto remédio? De que adianta viver tanto se é para viver assim? Ela está feliz? Isso é vida ou sobrevivência?

Esse turbilhão de perguntas sem respostas continua e uma grande revolta invade meu coração. Ai sempre tem alguém para lembrar que tudo está nas mãos de Deus, que os médicos não podem deixar de agir assim. Mas eu sinto, no fundo do meu coração, que excesso de médico, remédio e tentativas de prolongar a vida geram sofrimento. Antigamente a pessoa morria de gripe, "por que Deus achou que era o momento" mas sai ainda em plena consciência. "Dois dias antes estava fazendo bolo..."

Não sei o que é certo ou errado nisso tudo. Só sei que morrer após fazer algo que você gostava, ainda sendo o protagonista absoluto da sua vida me parece cada dia mais atraente. Acho que deveríamos viver ao máximo nossos planos, projetos e sonhos e depois morrer como passarinhos. Simplesmente não acordar no dia seguinte. Sem dor, sem drama porque convenhamos: a vida cotidiana de adulto "médio" já é cheia de dramalhões, dores e desafios. Os finais deveriam ser sempre felizes.

Mas, enfim, esse post tomou caminhos sombrios. A verdade é que cada pessoa da minha família, e de muitas outras por aí, estão passando por isso. Lidar com a diferença cada dia mais viceral entre o ontem e o hoje. E este final de semana será aniversário dela. Mais um dilema para nós. Depois de muita conversa e reflexão optamos por celebrar!

Celebrar a vida que ainda há! Alegrar a vida dos demais que também estão na mesma casa de repouso (outro tema que posso abordar no futuro e sim, acho que casa de repousos são sim uma ótima opção). Mas, acima de tudo celebrar a vida toda dela. Os anos que não faltaram doces e bolos embrulhados em papel e barbante sempre que alguém voltava de lá. Os panos de prato bordados que ela ficava o ano inteiro preparando para dar para todos da família em todos os natais. E o jeitinho contido de dar tapinha nas costas e agradecer pela visita quando nós é que estávamos super felizes por tê-la conosco.

Minha mãe está escrevendo as memórias de minha família. Contando as lembranças que tem de meus avós e bisavós, dos meus tios ainda criança e coisas que ficaram a muito no passado mas que enchem o coração de melancolia. Ou talvez saudade. Por que é como o perfume que fica como lembrança de um abraço quentinho. E nesse resgate das memórias há descobertas. Resignificação. 

Essas são as memórias que o Alzheimer nunca vai tirar de nós. Essa é a razão das visitas, ainda que curtas. E é por isso que vamos enfeitar tudo e celebrar a mulher que jamais será apagada nos nossos corações.

Parabéns vó por tudo que você fez!

Ciao 

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