Desde de minhas primeiras lembranças a questão aparência é tema recorrente. E, quase desde sempre, ser considerada acima do peso foi algo incessantemente destacados por todos ao meu redor. Não sou capaz de precisar quando fui incentivada a primeira vez a fazer dieta. Mas me lembro, ainda pequena, na casa dos meus avós, de ter optado por comer um pedaço de bolo escondida para evitar conflitos.
O mais estranho disso tudo é que todos agiam acreditando fazer o melhor. Ignorando como isso poderia influenciar minha autoestima. Durante anos da minha vida, pensar sobre aparência me causava um imenso dilema. Por um lado eu sempre (SEMPRE) gostei da imagem que via no espelho, talvez por isso, sempre me chocava quando escutava coisas do tipo: "você tem um rosto lindo se..." (preencha esse espaço com qualquer coisa que envolva emagrecer). Eu comecei a duvidar que o que eu via era real. Se ninguém mais consegue ver beleza sem "se...", eu devo estar errada. Até hoje tenho que me lembrar que o que EU vejo é o que importa.
Ao longo de quase quatro décadas de existência, já tive quase todo o tipo de silhueta possível. De muito magra a muito gorda (e tudo que há entre os dois extremos). Posso dizer que, com certeza, nada disso importa se você não estiver se sentindo linda em qualquer uma dessas formas.
Lembro que, quando tinha por volta dos 11 anos, fui a um médico especialista em emagrecimento. Tinha que tomar chás horríveis e comer porções que me faziam sentir muita fome. Mas, o que mais me marcou, foi uma frase que aquele sujeito franzino de jaleco branco e aspecto de doente disse: "quando você emagrecer você vai parar o trânsito! Você é muito bonita!"
Fora a incoerência dessa frase (se sou bonita, no presente, por que preciso mudar?), como sabem, crianças podem ser inocentes as vezes e eu acreditei nisso! Por anos! E aos 12 anos estava macérrima (sim, é isso mesmo, desde que minha querida Jane - professora de Português - me ensinou que essa é a palavra correta, não consigo mais dizer magérrima como antigamente). Aguardei ansiosamente quando meninos começariam a se digladiar por mim, e os carros batendo ao me ver passar e mil declarações de amor eterno... E nada aconteceu!
Os anos se passaram e lentamente fui ganhando peso. A fase mais complexa da vida de todos se inciava: a famigerada ADOLESCÊNCIA!
Não se enganem! Nunca fui do tipo com cara de coitadinha que se esconde pelos cantos. Não! Minhas amigas eram lindas e inteligentes (de verdade: número 1 e 2 no ranking da escola)! Tenho muita sorte e sempre convivo com pessoas maravilhosas! Quando olho para trás, nesta minha mania de analisar tudo, e lembro da sensação de invisibilidade que me assolava, acredito que parte é natural para a época e parte culpa minha e de meus muros de autopreservação. Atribui muito a minha imaturidade e resolvi emagrecer outra vez, logo após a faculdade, quando atingi o meu peso máximo. Antes que comecem com o preconceituoso discurso "é pela saúde", nunca tive nenhum problema de saúde e era por estética sim! Ainda queria os milhões de homens apaixonados por mim! (SIC)
Emagreci até o médico dizer que devia engordar um pouquinho. E algo chocante aconteceu: eu continuava vendo a mesma pessoa no espelho. Um rosto um pouco mais magro talvez, mas a mesma pessoa. E isso me incomodava. Um lado de mim sempre soube que creditar o "paraíso" a magreza era tolice. E lentamente me senti um pouco frustrada. Nada de caos no trânsito ou horda de homens loucos de paixão (apesar de brincar com isso, não acho que nada disso é bom, ok?). Uma Mariana começou a gritar "EU TE DISSE!" dentro de mim. Aquela que sempre soube que eu era linda o tempo todo. Aquela que nunca permitiu que ninguém me diminuísse ou me escondesse pelos cantos. Aquela que sempre foi combativa gritou: basta! E assim comecei uma luta para descobrir o que EU acho bonito. O que EU acho importante. E quem EU quero ser.
Hoje estou bem mais gorda que há 5 anos atrás. Mas HOJE estou muito mais satisfeita comigo mesma. É bizarro como as pessoas têm dificuldade em aceitar isso! Como eu adoraria que na década do 90, quando eu era adolescente, houvesse esse movimento importantíssimo PLUS SIZE! Lembro de quando eu saía como minha amiga de adolescência Lília noite afora, os elogios eram "que gordinha sexy". Não sabia lidar com elogios, principalmente quando a palavra GORDA (no caso no diminutivo para suavizar) estava envolvida. Ainda não sei lidar bem com elogios, mas estou trabalhando isso. Reparei que muitas amigas, com idades, aparências e vidas diferentes, também sofrem com isso. Talvez porque nós, mulheres, somos educadas para ser muito modestas e acostumar desde cedo com críticas e limites. Por exemplo, eu gostava de dançar mas bastava alguém elogiar que eu parava. Além disso, quando era criança, na louca década de 80, eu fazia Jazz. Eu sabia dançar bem, além de ser super flexível. Nossa turma de jazz foi convidada para participar de um programa de TV que na época fazia muito sucesso (Tia Dulce, alguém lembra?). Pois bem, eu obviamente era a única gorda da turma e, logicamente, não fui convidada para participar. Por que será? Caso houvesse algum motivo além do meu peso, nunca fiquei sabendo, então, após isso, saí da aula. Não havia motivo para continuar se não iria participar das apresentações. Parei naquela época e só voltei a tentar dançar muitos anos depois, quando fazia teatro. Na época eu estava magra (mas não esquálida) e fui fazer Dança Contemporânea na UFMG. Quando a professora começou a insinuar que eu devia emagrecer, eu saí. Não estava nenhum pouco a fim de ouvir isso de uma professora de dança contemporânea (que nasceu para fazer contra ponto ao balé). Detalhe: ela estava acima do peso. Eu estava vestindo 42 (meu menor manequim é 40). Estava fazendo teatro na época e queria explorar tudo que envolvia arte e expressão corporal. Foi bem decepcionante principalmente por que eu já estava no processo de questionar a obsessão das pessoas com a magreza. Próximo projeto é esse: fazer tudo que eu gostava mas parei por bloqueios tolos.
Enfim, o estopim para este texto foi perceber, numa conversa com meu irmão, como as pessoas que não fazem parte desse universo Plussize ainda acham a palavra GORDA(O) algo pejorativo. Perceber que pessoas que me amam, além de desconhecidos, ainda insistem em querer passar dietas ou ficar mencionando o quanto "elas precisam" emagrecer mesmo estando em excelente forma física.
Tudo isso me fez sentir uma vontade imensa de compartilhar ideias e experiências, que acredito que possam ajudar outras pessoas que também passam por isso. Conhecer perfis de pessoas que já estão em estágios avançados de autoconhecimento e aceitação me ajudaram a chegar até aqui. Hoje posso dizer que já rompi com o padrão estético que me limitava. Irei compartilhar aqui sites e perfis que me ajudaram a começar a questionar o que é beleza para mim. Acredito que isso seja saudável para todas as pessoas, independente do tipo físico, por que padrões não foram feitos para ser alcançados. Os padrões foram feitos para segregar e vender. Farei um post apenas sobre isso mas, hoje, proponho que cada um pense até que ponto o padrão de beleza que segue hoje, limita e dificulta a sua vida.
Aceitação e autoestima são coisas que conquistamos diariamente. Não é fácil sair da armadilha dos "padrões" (que são absolutamente inalcançáveis sem Photoshop até para as modelos) mas vale a luta! Sua saúde mental (essa ninguém lembra quando sai ditando regras obsoletas) vale a luta! É isso que te convido a tentar! Uma dia após o outro questionando regras impostas. É isso que farei aqui.
A moça do espelho continua me sorrindo e tenho esperança que um dia ela não viva apenas no espelho.
Ciao.
Mari, amei!!!! Lindo, lindo, lindo! Cê escreve muito bem! Com coração! É muito importante esse tipo de relato. Beleza é algo de dentro pra fora.
ResponderExcluirVejo também a moda também como parte importante da educação. Comecei a ouvir o Papo de Gordo quando o Monacast acabou e a Euba migrou pra lá. E outro dia foi citado que para os padrões de hoje, Marilyn Monroe seria considerada plus size.
Seria DIVA. Mas quantas pessoas não vemos hoje sofrendo os desturbios que na nossa época eram acusados por pessoas próximas, hoje pela moda, pelas revistas, pela mídia?!?
Aquelas que esquece de se despedir... rs
ExcluirEscreve mais...
Beijinhos
Obrigada pelo apoio e carinho! Pois é! Pensa bem, considerar Marilyn Plus size?! E os distúrbios alimentares assombrando gerações por causa de padrões inalcançáveis! Precisamos repensar tudo isso. 💕
ExcluirMari, sua linda! Que espaço incrível para estar junto com pessoas especiais, que têm a necessidade de se abrir. Todos nós temos uma caixinha de segredos, e quando conseguimos abri-la e deixamos expostos seu conteúdo, tudo fica mais leve. Parabéns pela ideia. Bjinhos
ResponderExcluirObrigada! 💕
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